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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

O cemitério de Loulé, lugar de cultura e de memória

01.11.17, Lígia Laginha



Hoje, dia 1 de novembro, é feriado nacional e os católicos celebram o dia de Todos-os-Santos, homenageando assim todos os santos e mártires, conhecidos ou não. Embora amanhã seja o dia efetivamente consagrado aos fiéis defuntos, por tradição, no dia de hoje visitamos os cemitérios evocando os nossos ente-queridos que já partiram, ornamentando a sua última morada com flores e aproveitando para rever amigos e conhecidos que cumprem também este ritual. 

Por este motivo, decidi escrever um pouco sobre a história do nosso cemitério. O texto foi elaborado a partir de informações fornecidas pelo saudoso Eng.º Luís Guerreiro e pela colega e amiga Luísa Martins, orientadores de uma série de visitas culturais ao cemitério de Loulé promovidas pela Câmara Municipal em 2012. Estas visitas tiveram como objetivo demonstrar que o cemitério não é apenas um lugar de tristeza e de culto religioso, mas também uma forma de conhecer melhor a nossa história contemporânea, assim como a nossa cultura e memória coletiva.

O atual Cemitério de Loulé foi inaugurado em 1918, por altura da pneumónica, doença que matou milhares de pessoas em todo o país. Esta epidemia veio acentuar ainda mais as quezílias, que existiam em Portugal desde o século XVIII, relacionadas com o fim da tradição religiosa e nada higiénica de sepultar os mortos no interior das igrejas e nos seus adros. Os cemitérios civis, longe das igrejas e das povoações, resultavam de uma preocupação com a saúde pública, mas, mesmo assim, a sua criação foi muito contestada pelas pessoas ligadas à Igreja Católica.
Contudo, sobretudo após a implantação da República, em 1910, os cemitérios civis acabaram por impor-se. E traduziram também a estrutura social e até o pensamento político de quem aí tinha o seu último repouso. 

Em Loulé, o cemitério tem uma larga rua central, de onde partem outras ruas. Logo à entrada, de cada lado dessa rua central, estão os jazigos das duas famílias mais importantes da então vila: «José Martins Farrajota e Maria das Dores Farrajota e Família» e «Angelo José de Castro e Família» são as inscrições que se podem ler na frontaria de cada um dos jazigos, decorados com motivos maçónicos e laicos, já que ambos, além de serem abastados e influentes comerciantes, eram também destacados republicanos. De facto, na decoração dos jazigos a simbologia maçónica é uma constante, nomeadamente as colunas na fachada com os seus fachos invertidos (símbolo da vida que se esvai), as folhas de acanto ou de louro, as flores, as chamas, os anjos, as cruzes, a foice ou gadanha da morte, a caveira, entre muitos outros.  Tanto José Martins Farrajota como Ângelo José de Castro morreram anos antes da inauguração do atual Cemitério, mas foram trasladados para os novos jazigos. 
Na larga rua da direita, sucedem-se depois os jazigos de outras famílias importantes, como o que ostenta a inscrição em pedra «Família Magalhães» e onde está sepultado Duarte Pacheco, o louletano que foi Ministro das Obras Públicas de Salazar. Segue-se o jazigo de Frutuoso da Silva, outro rico comerciante, que construiu o Cineteatro Louletano, ou o de «Joaquim Marcello Adelino e sua Família», uma bela peça arquitetónica e escultórica, ladeado por dois anjos laterais, com as inscrições «Eternidade» e «Verdade». Neste caso, como em tantos outros, o túmulo é decorado com símbolos maçónicos, mas também ostenta uma cruz, remetendo para o compromisso entre igreja e espaço laico que acabaria por imperar. 



Em seguida encontra-se o jazigo de «Manoel dos Santos Gallo», o primeiro administrador do concelho de Loulé após a Implantação da República, bem como um dos fundadores do Centro Republicano Azevedo e Silva.
Ainda na mesma rua, surge um monumento funerário diferente, que celebra um jovem militar espanhol pertencente à Ordem da Torre e Espada e cuja identidade se desconhece. De resto, é importante salientar que no cemitério de Loulé estão muitos espanhóis. A primeira leva desses espanhóis veio sobretudo da zona de Vila Nueva de Castelejos, na província de Huelva, no século XIX, empurrados primeiro pelas invasões francesas e depois pela guerra civil carlista. A maior parte destes estabeleceram-se em Loulé como comerciantes, ocupando quase toda a rua das lojas. Atualmente há muitos descendentes destes espanhóis em Loulé, tais como os Romeros, os Formosinhos, os Pablos, e os Franca. Posteriormente, já no século XX, houve uma nova fase de vinda de espanhóis para Loulé, estes de origem diferente, mas, muitos deles, também sepultados no cemitério louletano. Noutro local do cemitério, em campa rasa e apenas assinalada com lápides com os nomes em latim, estão sepultados alguns dos padres jesuítas que, após a 2ª República espanhola, fugiram do país vizinho. O Colégio Gonzaga, uma grande instituição jesuíta espanhola, mudou-se para Loulé entre 1934 e 1939, tendo funcionado no Palácio Gama Lobos, ainda hoje chamado Palácio dos Espanhóis.

Voltando à rua principal, nesta encontram-se sepultados diversos ex-autarcas da Câmara Municipal de Loulé. Um deles repousa num dos mais enigmáticos monumentos funerários de todo o cemitério, nomeadamente um mausoléu baixo, com uma escada que não conduz a lado nenhum e que parece nunca ter sido acabado. No entanto, o espaço funerário integra uma catacumba subterrânea, com capela. Este mausoléu pertence a José da Costa Ascensão, o primeiro presidente da Câmara após a implantação da República. Na mesma rua situa-se o jazigo de José da Costa Mealha, que também foi presidente da Câmara e cujo nome identifica hoje a avenida central da cidade. Grande comerciante de frutos secos, um homem abastado, que viajava muito e que dessas viagens trouxe novas ideias para Loulé e para o Algarve.

Segundo os ideais maçónicos e laicos as pessoas, embora não fossem iguais em vida, ao menos deveriam sê-lo na morte, no entanto, a própria configuração espacial do Cemitério de Loulé contraria estes propósitos. Neste sentido, os mais ricos ocupam a parte central do cemitério e um dos lados deste e os mais pobres encontram-se mais ao fundo e no outro lado, traduzindo a realidade social da vila. 

Assim, nem só de grandes comerciantes e ex-presidentes de Câmara se faz a história do Cemitério de Loulé. Entre os muitos homens de cultura que por ali estão sepultados, o destaque vai para António Fernandes Aleixo, que foi cauteleiro, guardador de rebanhos, emigrante em França, polícia e poeta. Repousa numa campa quase rasa, coberta com uma lápide de mármore que ostenta uma das suas quadras, na zona popular do cemitério.




E no mesmo cemitério está ainda Joaquim Magalhães, que foi professor, mas acabou por ficar conhecido como o descobridor e “secretário” de António Aleixo, já que foi ele que fixou em escrita e organizou os seus poemas.

Por fim, surge uma pergunta: quem terá construído os monumentos que se encontram no cemitério? Desconhece-se a resposta, no entanto, este seria um tema interessante de investigar. 

E pronto, este é um bocadinho da história e das estórias do nosso cemitério. Um sitio onde repousam os mortos, mas onde podemos aprender muito sobre os vivos!

Nota: Informação maioritariamente retirado do artigo Visitar o Cemitério de Loulé para conhecer a história contemporânea do país da autoria de Elisabete Rodrigues publicado no jornal Sul Informação no dia 22 de abril de 2012. Ler artigo na integra aqui