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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

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A moura do pente de ouro

31.10.17, Lígia Laginha



O Algarve é rico em lendas e tradições que remetem para o passado em que a região foi ocupada pelos árabes. Assim, muitas vezes, o nosso imaginário tem como elementos chave as mouras encantadas e os seus encantamentos. Uma dessas lenda é A moura do pente de ouro:

“Não muito distante da povoação (Salir), há um sitio chamado a Fonte de Ouro, antigamente cognominado a Fonte do Mouro, onde, segundo a tradição de muitos séculos, existem encantadas duas irmãs, duas mouras, que têm aparecido a diversas pessoas. 
Há muitos anos passava casualmente por este sítio um mancebo, viu sentada a pentear-se com um pente de ouro uma formosa mulher. O rapaz quedou-se pasmado para o pente e para a mulher.
- O que queres? Perguntou-lhe a mulher.
- Nunca vi pente tão bonito e tão rico, respondeu o mancebo.
- Dou-te riquezas de muito mais valor se me prestares um pequeno serviço.
- Que serviço?
- Eu e a minha irmã estamos aqui encantadas. Se nos desencantares, dou-te dinheiro para comprares muitos pentes.
- O que devo fazer?
- Amanhã, antes do sol nado, vem aqui e encontrarás dois touros bonitos e belos. Junge-os ao arado e tira um rego da igreja de Salir até aos Palmeiros: um rego sem curvas, o mais direito que possas. Deves, porém ter consideração que não te distraias com o que encontrares no caminho, ainda que a chapa do arado levante peças em ouro. Se te distraíres não ganhas o que te prometi e redobras o nosso encantamento.
Prometeu o rapaz cumprir à risca a condição proposta.
No dia seguinte, antes de nascer o sol, voltou o mancebo ao sítio, e encontrou dois belos touros. Jungiu-os ao arado que ali encontrou e tomou o caminho de Salir, começando à porta do templo, que era então a capela do castelo. Tirou o rego, seguindo a direcção dos Palmeiros, com os olhos fixos na canga para não se distrair. A cem metros dos Palmeiros encalhou a chapa do arado em uma pedra, que rebentou ao impulso dos touros, saltando para o ar uma grande porção de dobrões de ouro. Esquecido da promessa ou convencido daquele anexim mais vale um pássaro na mão do que dois voando, o rapaz largou a rabiça do arado e foi encher o bolso de dobrões. Quando voltou para o arado não o encontrou, nem os bois; apalpou os bolsos e os dobrões tinham desaparecido!
Não podia ser maior o castigo!”

Nota: Esta lenda foi retirada da obra As Mouras Encantadas de Ataíde Oliveira.