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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

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A Festa Espiga

19.04.18, Lígia Laginha
Chegando a Maio, é altura de comemorar a Festa da Espiga. Contados quarenta dias após a Páscoa, na quinta-feira da Espiga celebra-se a Ascensão de Cristo, uma das festividades mais importantes do calendário cristão.
Por esta altura, manda a tradição que se vá para os campos apanhar a espiga. Este ritual, de cariz pagão, inicia a época das colheitas e assinala o período fértil da primavera, estando associado às festas agrárias. As suas origens remontam às civilizações clássicas greco-romanas, onde nas Festas Demétrias se evocava a proteção da deusa Deméter, deusa da agricultura e das searas e da sua filha Perséfone, deusa do trigo, da germinação, dos rebentos e das folhas.




O raminho, com virtudes de protecção e esconjuro, obedece a um preceito: deverá ser colhido pelo meio-dia, acompanhado de ave-marias e pais-nossos e compõe-se – sempre em conjuntos de número impar – de espigas de trigo, para a abundância de pão; raminhos de oliveira, para não faltar o azeite e a paz no lar; papoilas, para dar alegria; raminhos de romãzeira, para a abundância e fertilidade; o alecrim para que não falte a saúde e a força para trabalhar e malmequeres amarelos e brancos para o ouro e prata. O amuleto é pendurado atrás da porta da cozinha ou da sala e aí permanecerá por um ano até que seja substituído.

Contam as gerações mais antigas que nesse dia as populações iam para os campos exorcizar o inverno e receber a primavera em tom de festa e romaria. Com as vicissitudes dos tempos, esse ritual foi-se esvanecendo e este dia passou a ser considerado um dia normal de trabalho e até a Igreja o dispensou, transferindo as cerimónias litúrgicas para o domingo seguinte.

Recordava José Viegas Gregório:

“Antigamente nesta freguesia festejava-se a quinta-feira da Ascensão como dia santificado onde grande parte da população assistia à missa da Igreja Matriz celebrada com uma solenidade muito especial durante a qual o celebrante espalhava flores sobre a assistência como sinal da ascensão de Cristo ao céu.
Na parte da tarde as classes mais jovens (…) dirigiam-se ao planalto da Rocha da Pena onde passavam o resto do dia em animado convívio de comes e bebes. Outros ocupavam-se em apanhar flores e plantas medicinais para cura das doenças que durante o ano pudessem vir a ter.” (in Agenda Cultural, Câmara Municipal de Loulé, Maio de 1993)

Corria o ano de 1968, quando José Viegas Gregório, então Presidente da Junta de Freguesia de Salir, resolveu devolver ao Dia da Espiga a dinâmica entretanto perdida. As celebrações populares espontâneas deram lugar a festejos organizados pela Junta de Freguesia com a pronta e entusiástica adesão dos habitantes de Salir, inaugurando-se a Festa da Espiga neste novo formato, em 23 de Maio de 1968.



A festa adquire um cariz etnográfico – os visitantes assistem ao desfile de viaturas particulares, profusamente decoradas com palmas e vegetação diversa. A tripulação, aprumadamente trajada à moda antiga dá alma à festa: ao som do acordeão e cantares tradicionais, recriam as diversas actividades agrícolas e artesanais da freguesia, contando-se entre elas: o trabalhar a terra, as colheitas, o fazer do pão, a destilação, a apicultura, a cortiça, os trabalhos de linho, palma, esparto, cestaria de verga, a matança do porco, os jogos tradicionais, entre outras mais. 
A declamação de poesia de improviso à tribuna é o ponto alto do cortejo – os carros alegórico, um por um, vão parando junto ao palanque que escuta animadamente as suas declamações ao sabor do melhor das produções de cada povoado: provam-se os tintos e os medronhos, a linguiça e o queijo… 

A Festa da Espiga de Salir tem, ao longo dos anos, atraído um cada vez maior número visitantes, sendo já cartaz turístico da freguesia e do concelho. Pelo papel representativo da nossa cultura e das nossas raízes, o feriado municipal é, desde 1985, comemorado no Dia da Espiga.


Quem foi José Viegas Gregório?

José Viegas Gregório nasceu em Salir no ano de 1915. 
Após anos dedicado ao comércio e à agricultura, iniciou, em 1952, a sua actividade pública, assumindo o cargo de Secretário da Junta de Freguesia de Salir. Seis anos depois foi eleito presidente da mesma Junta, funções que exerceu até Setembro de 1974. Regressaria à presidência da Junta de Freguesia nas eleições de 1982, mandato que cumpriu até 1985.
Uma das suas grandes paixões era o coleccionismo de tudo quando pudesse de alguma forma estar ligado a Salir. Do vasto acervo que deixou ao Museu Municipal contam-se objectos etnográficos, jornais, documentação, cartazes, programas de festividades realizadas em Salir e um vasto espólio fotográfico. 
Durante 43 anos foi correspondente do jornal “O Século” e colaborou em diversos jornais locais e regionais.
Contudo, José Viegas Gregório será sempre lembrado sobretudo pela criação da Festa da Espiga, realizada em Salir, por sua iniciativa, desde 1968. 
Em 1991 foi alvo de uma homenagem pública promovida pela Junta de Freguesia de Salir tendo sido atribuído na altura o seu nome a uma das principais artérias da referida Freguesia.
Pelo seu legado em prol da cultura local, José Viegas Gregório foi agraciado pelo Município de Loulé com a medalha municipal de mérito grau bronze, em 1993.
Faleceu a 13 de Outubro de 2007.

Nota: Texto da autoria de Helga Serôdio publicado na Revista Raízes n.º2, datada de 2014. Aceda à revista na integra aqui.