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Marafações de uma Louletana

Blog sobre Loulé e as suas gentes

Blog sobre Loulé e as suas gentes

Marafações de uma Louletana

24
Mai11

Património Louletano (III) - O Palácio Gama Lobos e a Igreja de Sant´Ana

Lígia Laginha

 

 

 

Bom dia caros visitantes do "Marafações de uma Louletana".

 

Hoje este blog marafado dá-vos a conhecer mais um pouco do património existente na Cidade de Loulé. E desta vez os eleitos foram o Palácio Gama Lobos e a I greja de Sant´Ana. Fica o aviso desde já que este é um tema polémico, na medida, em que ainda há muitas questões que se prendem com teorias genealógicas e outras. Neste sentido, a marafada louletana apenas deixará uma súmula sobre o assunto, súmula essa feita a partir da consulta de alguma documentação que é tida como a mais coerente. Atempadamente peço desculpa por alguma inconformidade que os mais entendidos possam encontrar e apelo a que partilhem os vossos conhecimentos aqui com o "Marafações de uma Louletana".

 

E assim sendo:

 

Uma lápide de pedra colocada na sacristia da Igreja de Sant´Ana atesta que a mesma terá sido edificada em 1725 pelo Padre João da Costa Aragão, filho do Tenente-Coronel Diogo Lobo Pereira, governador da Praça de Loulé. Ao que consta, o chamado “Solar dos Lobos” só foi iniciado cinquenta anos mais tarde pelo Capitão-Mor Manuel José da Gama Lobo Pessanha, filho de Nuno Mascarenhas Lobo e neto do referido Diogo Lobo Pereira.

Devido a divergências com o Juiz-de-Fora pouco depois do seu início a obra foi embargada e só quase cem anos depois é que o solar foi concluído por António José de Matos Mexia Costa.

Outra lápide, desta feita colocada no lado direito da Igreja, permite saber que em 1875 a Capela foi retocada através de dádivas de D. Maria Augusta Sovereira Zuzarte (prima e herdeira do último descendente dos Gama Lobo, Sebastião Alexandre da Gama Lobo) e e que entre 1891 e 1893 foi completamente renovada por devoção de António José de Matos Mexia da Costa, de sua esposa D. Maria Augusta Mascarenhas Matos e de sua filha D. Maria Bárbara Mascarenhas de Matos.

Nos finais do século XIX a casa e a quinta circundante são então propriedade da família Aragão Barros, rica e importante burguesia rural. Embora designado “Solar de Aragão”, a população louletana chamava ao edifício “A Boavista” ou a “Sr.ª de Sant´Ana”.

Na década de 30 de 1900 o “Solar Aragão” era ocupado por descendentes da família Aragão Barros que em 1936 alugaram o edifício e a quinta circundante a religiosos jesuítas espanhóis fugidos à Guerra Civil Espanhola. Em 1932 foi extinguida em Espanha a Companhia de Jesus e esta era detentora, na província da Bética, do Seminário de S. Luís Gonzaga, em Puerto de Santa Maria (perto de Cádis). Foram esses alunos e professores jesuítas que se transferiram para Loulé e aí criaram, actual edifício nas traseiras do solar, um colégio que era frequentado apenas por alunos espanhóis. Esse estabelecimento de ensino foi chamado de Colégio de Estudos Clássicos, ou de Humanidades e Línguas Clássicas, “Gonzaga”, e chegou a ser frequentado por 76 pessoas entre sacerdotes, escolares e coadjutores.

Depois de estabelecidos no solar arrendado, os jesuítas solicitaram à Câmara Municipal de Loulé autorização para ampliarem as instalações de acordo com projecto apresentado. A sua pretensão era construir um novo edifício nas traseiras do “Solar” com frentes para a estrada de Salir e interior da Quinta da Boavista. O novo edíficio, com rés-do-chão e 1.º andar, comportaria no 1.º piso, três salas de aula, quarto quartos, sentinas e duas casas de banho, bem como um refeitório e cozinha e, no 2.º piso, destinar-se-ia a camaratas para 34 pessoas e duas sentinas. Os diversos requerimentos apresentados foram assinados por José Maria Villoslada, padre e primeiro ministro do Seminário.

Em 1939, terminada a Guerra Civil Espanhola, os jesuítas espanhóis regressaram ao seu país e a família Aragão Barros retoma o “solar”.

Nos finais dos anos 50 e inícios dos anos 60, a Comissão Carnavalesca de Loulé começa a anunciar os bailes de Carnaval para o então já conhecido como “Palácio dos Espanhóis”.

Ao longo das últimas décadas o “solar” ou “palácio”, edifício brasonado, tem sido usado para diversos fins, nomeadamente como sede de escolas de música, sítio para o Rancho Folclórico ou as Majoretes de Loulé levarem a cabo os seus ensaios e espaço de outras actividades artísticas e culturais.

Quanto à Ermida a Câmara Municipal de Loulé procedeu ao seu restauro interior e exterior nos anos de 2006/2007. Nas Actas de Janeiro de 2008, a Câmara cedeu à paróquia de S. Clemente o espaço da Igreja de Sant´Ana para que aí fossem realizados os diversos serviços eclesiásticos. A 5 de Janeiro do mesmo ano realizou-se a cerimónia religiosa de bênção do espaço da Ermida de Sant ´Ana e das respectivas imagens que nela figuram. A partir dessa data a Ermida passou a ser o local onde se realizam praticamente todos os velórios das pessoas falecidas nas freguesias de S. Clemente e S. Sebastião.

Nos séculos passados esta ermida terá servido de capela particular dos Gama Lobos e nela podia encontrar-se a imagem de Sant´Ana, a única existente em Portugal, datada de c. de 1565. Trata-se de uma figura em madeira, com 120 cm por 52 cm, cujo autor se desconhece.

 

Nota:

 

1. Para mais informações sobre este assunto consultar, por exemplo, a "Monografia do Concelho de Loulé" de Ataíde Oliveira.

10
Mai11

Património Louletano (II) - Convento de Santo António

Lígia Laginha

 

 

Boa tarde caríssimos visitantes do “Marafações de uma Louletana”.


Hoje este blog marafado vai dar-vos a conhecer mais um pouco do património cultural, histórico, religioso e arquitectónico da nossa querida cidade louletana. E o eleito é o Convento de Santo António:


O primeiro Convento dos Capuchos de Santo António, da Ordem de S. Francisco dos Capuchos da Província da Piedade, que existiu em Loulé, estava localizado a Sul do actual edifício. Tal acontece porque inicialmente era aconselhado aos frades mendicantes que construíssem os seus conventos longe das povoações de forma a melhor cumprir os seus deveres místicos e religiosos. Mais tarde houve uma mudança de preferência para locais próximos dos meios urbanos facilitando o cumprimento do peditório do pão, celebração de missas aos devotos e a recolha de esmolas. Assim, o antigo Convento quinhentista foi abandonado dando lugar a um edifício mais próximo da povoação.

Nos séculos XVI e XVII a acção mecenática da parte da Coroa e da Nobreza favoreceu o aparecimento dos conventos. Em Loulé, os instituidores do primeiro Convento de Santo António foram D. Nuno Rodrigues Barreto e sua mulher, D. Leonor de Milão, os quais foram aí sepultados depois de falecer. Posteriormente, os seus restos mortais foram transladados para uma capela do novo Convento. Actualmente, podemos ver a lápide dos instituidores nos claustros do convento.

A construção do novo Convento iniciou-se em 1675 num terreno cedido por André de Ataíde. A primeira pedra foi lançado elo então bispo do Algarve, D. Francisco Barreto II, em 11 de Agosto de 1675. As obras terminaram a 22 de Junho de 1691.

A arquitectura sóbria obedece às linhas dos outros conventos da Província da Piedade. Ao longo dos anos sofreu diversas alterações, sobretudo depois do terramoto de 1755 e da extinção das Ordens Religiosas em 1834.

O claustro do convento, de planta quadrada, mantém ainda a sua forma original. É composto por três arcos por banda, assentes em pilares de pedra, rectangulares. Os arcos são de volta perfeita no piso inferior. No piso superior, os arcos são abatidos e atestam ser de um período posterior aos arcos primitivos. O piso térreo tem abóbadas e o superior não possui algum fecho. A Igreja era de planta rectangular, com abóbada de berço e tinha três altares.

A cerca do Convento constituía um elemento identificativo do seu conjunto, e nela encontravam-se os pomares, a horta e o jardim, onde era abundante a água. Os frades eram auto-suficiente e subsistiam através do trabalho agrícola e da produção de azeite, esta última atestada pelo engenho de lagar ainda existente nas traseiras do edifício.

Após a extinção das Ordens Religiosas em 1834, o convento foi usado como armazém, fábrica de curtumes e habitação. Actualmente aí se realizam eventos culturais tais como exposições, espectáculos e outros.

Foi considerado Imóvel de Interesse Público pelo Decreto-Lei n.º 181/70, de 28 de Abril.


Nota:


1. Informação retirada de um  desdobrável com texto da Dr.ª Luísa Martins.

22
Abr11

Património Louletano (I) - A Ermida da Nossa Senhora da Piedade

Lígia Laginha

 

 

 

 

 

 

Bom dia caros visitantes do “Marafações de uma Louletana”.


Hoje este singelo blog inaugura uma nova rubrica que diz respeito à dimensão patrimonial do Concelho de Loulé. Porque as terras louletanas são também ricas em património, sobretudo religioso, e mais uma vez o objectivo da marafada louletana é dar a conhecer um pouco das valências desta linda terra que é Loulé.


E porque no próximo Domingo terá lugar a Festa Pequena em honra da Nossa Senhora da Piedade, acontecimento já referido nesta blog, começamos por elucidar os nossos visitantes sobre a Ermida de Nossa Senhora da Piedade. É certo que à alguns anos foi construído um novo santuário para a padroeira de Loulé, no entanto, o “Marafações de uma Louletana” centrar-se-á na “velha” capela por ser pelos louletanos a eterna “morada” da Mãe Soberana.

Tendo por base as “Visitações da Ordem Militar de Santiago” de 1565 podemos saber que a Ermida de Nossa Senhora da Piedade foi construída em 1553. O lugar escolhido para a sua edificação foi o alto de um cerro que estava próximo do aglomerado urbano.

Nos finais do século XVI, o padroado deste templo passa para a Câmara de Loulé e esta edilidade assumiu a responsabilidade de organizar a festa principal que teria lugar na “segunda-feira depois das oitavas da Páscoa”.

O retábulo original da capela mor manter-se-á ao culto até princípios do século XVIII, altura em que Filipe Peixoto de Moura, como Reitor da Confraria de Nossa Senhora da Piedade, optou pela feitura de um novo retábulo em talha cuja realização ficaria a cargo do entalhador algarvio Gaspar Martins. Este retábulo seria destruído pelo terramoto de 1755, que destruiu também parte da ermida, nomeadamente a capela mor. Nos anos seguintes foi construída uma nova capela mor onde se encontra o actual retábulo de talha. Este retábulo foi construído em 1760 e a sua feitura é atribuída ao entalhador louletano João da Costa Amado. O douramento teve lugar quatro anos depois e será obra de Diogo de Sousa e Sarre.

As últimas obras de reconstrução ocorreram nos finais do século XIX com a reformulação da fachada principal.

No tecto da Ermida podemos ver um dos seis exemplares de tectos pintados com composições de perspectiva arquitectónica existentes no Algarve. A sua autoria pertence também a Diogo de Sousa e Sarre. Um interessante painel de azulejos de padrão ou de tapete percorre o lambrim desta ermida. As paredes laterais da capela mor e da nave foram ornamentadas nos finais do século XIX com dez painéis pintados sobre estuque com Cenas da Paixão de Cristo. Esta obra terá sido levada a cabo por José Porfírio, pintor de Faro.

Quanto à imagem de Nossa Senhora da Piedade esta mede 90 cm x 40 cm, medidas inseridas no formulário maneirista. Foi provavelmente executada por um imaginário farense nos finais do século XVI ou nos princípios do século XVII. Em 1764 Diogo de Sousa e Sarre estofou a imagem da padroeira.

 

Hoje em dia a Ermida foi alvo de novo restauro e existe uma réplica da imagem da Mãe Soberana presente no novo Santuário.


Nota:


1. A informação aqui contida baseia-se em dados fornecidos pelo Dr. Francisco Lameira, especialista em arquitectura e arte religiosa e com várias obras publicadas sobre o tema.


2. Muito mais haveria a dizer mas este blog pretende dar a conhecer um pouco dos aspectos mais relevantes sobre Loulé e as suas gentes e faz uma abordagem ligeira sobre cada temática. Quem tiver interesse pode sempre procurar saber mais.