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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

O que os algarvios comem - Arjamolho

24.05.20, Lígia Laginha


Com a chegada dos dias quentes, apetece mesmo um arjamolho geladinho. Também conhecido por gaspacho ou sopas frias, o arjamolho é confeccionado e comido um pouco por todo o Algarve e é um excelente acompanhamento para as sardinhas assadas.

O arjamolho é mais um prato de grande simplicidade que conquista aqueles que vêm de fora e o provam.

Então aqui fica a receita:

Ingredientes:
Para 4 pessoas

300 grs de tomates maduros ;
3 dentes de alho ;
1 pimento verde ;
1 dl de azeite ;
2 cls de vinagre ;
200 grs de pão caseiro duro ;
oregãos q.b. ;
sal grosso q.b.

Confecção:

Descasque os dentes de alho e pise com azeite e sal. Tire os pés aos tomates, escalde-os em água a ferver, retire a pele e limpe de sementes. Corte em cubinhos. Limpe o pimento e corte, também, em cubinhos.
Num recipiente, deite o azeite, o sal e os alhos, junte os tomates, o pimento, os oregãos, água fria e o vinagre. Corte o pão em fatias pequenas e adicione.
Mexa e sirva bem frio.


Nota:


1. Há ainda quem adicione pepino ou cebola ao arjamolho e quem não lhe coloque pimento. Todas estas vertentes são saborosas de igual modo. A marafada deixa a dica de que o pão deve estar bem duro e ser cortado em bocadinhos pequeninos.


2. O da foto fui eu que fiz e estava um arraso :) 

As Marchas Populares de Quarteira

22.05.20, Lígia Laginha


Herdeira de costumes ancestrais relacionados com a celebração do Solstício de verão pelos povos pagãos, posteriormente adotados e reinterpretados pelo Cristianismo, Quarteira foi, desde o século XIX, um dos destinos mais procurados para o tradicional "banho santo" ou "banho de S. João". Assim, no dia 24 de junho, data do nascimento de São João Batista, muitas pessoas, vindas das diversas freguesias louletanas, sobretudo das mais rurais, rumavam a Quarteira para pernoitar nas suas praias e obter a purificação e a prosperidade que, exclusivamente nessa noite, se acreditava que a água do mar podia oferecer. Numa época em que grande parte da população dependia da agricultura e da pecuária para subsistir, era comum banhar também os animais, para que estes se mantivessem sãos e prósperos. 
O levantamento do mastro era outro dos elementos que tinha origem na época pré-cristã. Também este aspeto foi adotado pelo cristianismo que manteve o levantamento dos mastros nos quais eram colocadas bandeiras alusivas aos santos. Assim, pouco a pouco, as festas em honra de S. João foram crescendo, sobretudo na sua dimensão mais popular e, tanto a Igreja, como o povo, foram elegendo outros santos para a sua devoção. Estes Santos foram considerados populares e os lugares de eleição escolhidos para homenageá-los eram os arraiais, festas ao ar livre, organizadas pelos bairros mais tradicionais, onde se comia, bebia e se bailava. 



Em Quarteira, estes festejos eram levados a cabo pelos grupos das fábricas de conserva da CUF, dos quais se destacava o grupo etnográfico designado "Grupo das Latas Furadas", responsável pelos bailes de mastros mais concorridos. Até à década de 70 do século XX eram assim celebrados os Santos Populares em Quarteira, Por esta altura, a vida cultural quarteirense girava em torno da Casa dos Pescadores, sediada onde atualmente se encontra o Centro Autárquico, na Rua Vasco da Gama. Era na Casa dos Pescadores que se ensinava aos jovens diversos ofícios, se faziam récitas, se ensaiava o Rancho Folclórico, entre outras atividades. 
Os finais dos anos 60 são também marcados pela chegada a Quarteira do novo pároco, o Padre Elísio Dias, que enquanto seminarista, conviveu com uma outra forma de celebrar os Santos Populares, as chamadas Marchas Populares, surgidas em Lisboa no ano de 1932. Desde logo, o novo pároco se interessou pelas diversas atividades desenvolvidas na Casa dos Pescadores e foi neste espaço, junto da juventude que o frequentava, que fomentou a ideia da criação de uma marcha popular à semelhança do que havia visto na capital. Adeptos dos arraiais e dos bailes na Esplanada, os quarteirenses receberam com agrado a proposta do Padre Elísio e, neste contexto, surge a primeira marcha popular de Quarteira em 1970. Esta marcha era composta por cerca de quarenta pares e desde logo os trajes estiveram relacionados com o mar e com a pesca. O desfile teve lugar na noite de S. João e partiu da Taberna D'El-Rei, culminando na Esplanada de Turismo de Quarteira, atual Praça do Mar, na Av. Infante Sagres. Desta marcha resultaram uma série de casamentos e, embora se passassem quase vinte anos sem uma nova iniciativa deste género, o gosto pelas marchas populares ficou no sangue das gentes de Quarteira. Adormecida desde 1970, a ideia de organizar uma marcha popular em Quarteira foi recuperada pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Cultural de Quarteira (A.D.E.C.Q.), fundada em 1988. Assim, sob a liderança de Leonel de Sousa, esta associação foi responsável pela organização de uma marcha que, entre 1988 e 1991, abrilhantou os Santos Populares em Quarteira. A marcha popular, toda a sua dimensão etnográfica, bairrista e teatral, é então adotada pelos quarteirenses que reconhecem na mesma uma forma de expressar as vivências coletivas da comunidade, as suas tradições e heranças culturais dentro de uma rivalidade saudável. Neste ponto de viragem, e se durante algum tempo a marcha da A.D.E.C.Q. foi a única a desfilar, a partir de 1992 surgem outras marchas que representam as ruas da cidade, localidades ou temáticas relacionadas com a freguesia. Neste contexto, em 1993 apresentam-se onze marchas e, à semelhança do que seria feito durante alguns anos, os quarteirenses contaram com a participação de uma marcha convidada vinda de Lisboa, nomeadamente a de Marvila. As Marchas da Checul, das Florinhas de Quarteira, da Rua da Alegria, 1.º de Maio, da Rua da Cabine, da Rua Gago Coutinho, da Rua do Outeiro, da Rua Vasco da Gama e a Onda Jovem destacam-se pelo seu pioneirismo na história das marchas populares de Quarteira. Estas marchas, durante alguns anos, foram apresentadas no campo de futebol a 10 de junho e o seu percurso partia da zona do Mercado indo até ao Jazz Bar, atual Pastelaria "Pão do Povo". 
Muitos foram aqueles que contribuíram para que o número de marchas proliferasse em Quarteira, de entre os quais: José Encarnação, Isidoro Correia, Vítor Faria, Virgolino Café, Ezequiel Tomás, Tó Maria, Alexandre Madureira, Leonor Emídio, Felisbela Rilho, Arcelina Rocha, Ana Maria Cavaco, Esmeralda Brito, entre outros. Na década de 90, a dedicação dos quarteirenses às Marchas Populares aumenta gradualmente. As marchas participantes crescem em número e em brilhantismo, sempre procurando apresentar mais e melhor. Neste contexto, surge, em 1995, a APROMAR, Associação Promotora das Marchas Populares, que passa a ser organizadora oficial deste evento. Neste mesmo ano, a transmissão do desfile das Marchas Populares, na noite de 12 de junho, pela RTP1, será um momento crucial na afirmação e difusão das marchas populares de Quarteira enquanto espetáculo grandioso, cartaz etnográfico e turístico e importante manifestação da cultura popular. A maior projeção das Marchas Populares de Quarteira estimulou ainda mais a criatividade dos seus participantes e, de ano para ano, são notórias as melhorias e a preocupação em acompanhar as tendências sem, no entanto, descurar o caráter tradicional e etnográfico desta iniciativa. Assim, as Marchas Populares de Quarteira mantêm a sua originalidade e distinguem-se das suas congéneres em diversos aspetos, tais como: desfilarem por altura dos três Santos Populares (Santo António, São Pedro e São João) e reunirem numa mesma Marcha elementos com idades compreendidas entre os 5 e os 60 anos, procurando aliar a experiência à juventude e assim garantir o futuro desta tradição. Para além disso, nas Marchas Populares de Quarteira não há vencedores, nem vencidos, todos dão o seu melhor procurando aquela que é a melhor das gratificações: o entusiasmo do público. Há sim uma rivalidade, mas é uma rivalidade saudável que faz com as marchas resistam, mais ou menos populares, com maior ou menor sofisticação, mas com o espírito de despique bairrista intacto. 
Na atualidade as Marchas Populares têm lugar ao longo da Avenida Infante Sagres, popularmente designada por Calçadão, por ocasião do Santos Populares. Nos últimos anos o número de marchas participantes oscila entre sete e oito. Algumas das marchas surgidas em 1992, ou nos anos imediatamente a seguir, foram desaparecendo ou diluindo-se em novas marchas. Por outro lado, outras marchas foram aparecendo, como é o caso da marcha da Fundação António Aleixo, que começou a participar nas Marchas Populares em 2003, ou da Marcha de Vilamoura fundada em 2007. 
Em suma, nos dias de hoje as Marchas Populares de Quarteira deslumbram tanto quarteirenses, como aqueles que vêm de fora. As gentes de Quarteira são atraídas pelo desejo de reviver o passado e, nesse sentido, têm nas suas Marchas Populares um elemento de coesão social. Por outro lado, os de fora, movidos pela curiosidade de conhecerem os costumes locais, demoram-se por Quarteira e contribuem, dessa forma, para o seu desenvolvimento económico e para publicitar o seu nome enquanto capital dos Santos Populares do Algarve. 

Nota:

1. Texto da minha autoria publicado na Revista Raízes n.º 4 que podem ler na integra aqui.

Artes de antigamente - D.ª Aldegundes, a última esparteira de Alte

09.05.20, Lígia Laginha
 
 
Nas ruas românticas da aldeia de Alte, de calçadas tradicionais e empedrados, ecoou durante muito tempo, o som das maças de pisar o esparto, atividade que marcou a vivência económica e social de toda a freguesia, constituindo a ocupação principal logo a seguir à agricultura. 
O esparto podia ser trabalhado batido ou em cru. Para ser batido tinha que estar demolhado durante vários dias nas levadas da ribeira (quando fosse ao fundo é porque já estava bom), depois era retirado, abriam-se os monches/manchos, que se colocavam em pé, e enxugavam nas suas margens (mas não completamente). De seguida, ainda brando, o monche/mancho era colocado sobre um pisadoiro (pedra calcária), por cima deste passava uma corda (tamissa) para o suster, que numa extremidade estava presa à pedra e na outra era presa no pé de quem ía laborar. O esparto era pisado horas a fio, nas ruas e largos da aldeia e sobretudo na Rua dos Pisadoiros, com uma maça de azinho e os monches/manchos eram virados constantemente para os abrir até que a parte lenhosa da planta fosse eliminada, de forma a que ficasse macia e espalmada para não ferir as mãos de quem o torcia. 
Era um trabalho longo e penoso feito, principalmente, por mulheres, desde as primeiras horas da madrugada, até ao nascer do sol. À noite, nos serões à lareira ou nos pátios da aldeia, as mulheres torciam-no entre as suas mãos calosas, numa delicada e fina baracinha, que era esticada de árvore a árvore, medida em 10 braças e depois de acatornada era limpa com uma tesoura (ao desperdício chamavam-lhe tochas). Quando a arroba já estava toda trabalhada era entregue ao "dono do esparto", onde o tinham ido buscar em bruto e ganhavam a quantia de 20$00, corria a década de 30/40, do século passado. Este processo estava pronto em menos de uma semana e apesar de ser um trabalho, maioritariamente da mulher, esta contava com a ajuda de toda a família. Essa baracinha era utilizada para redes de gado (ovelhas), redes de pesca, seiras (transporte do figo), alcofas ou alcofões (para o transporte de terra ou cal), esteiras, seirões (para os lagares), sacos, armações (para a cortiça), tapetes, entre outras. Peças essas que eram "encomendadas" pelos "donos do esparto" às mulheres que tinham mais habilidade. O resultado do seu labor e perfeição, seria depois comercializado pelos donos do esparto, em Alte, Benafim e Loulé. 
A história do esparto, confunde-se com a história de Alte. Ainda hoje esta história está viva e Aldegundes Gomes, das Sarnadas, é um exemplo de como o esparto marcou a identidade de Alte. A última artesã de esparto de Alte, embora residindo numa região com uma cultura na produção do esparto, não é uma descendente direta desse conhecimento ancestral, apesar de seu pai ter trabalhado num armazém em Alte, pesando o esparto que as pessoas levavam e que depois traziam trabalhado em baraço. Representando uma das últimas conhecedoras do trabalho do esparto em Alte, o seu contacto com essa técnica iniciou-se em meados dos anos 60, já com propósitos turísticos: informa que o seu trabalho se inspirou inicialmente por uma cabeça de burro proveniente de um artesão espanhol. E assim foi aprendendo à sua custa, Daí prosseguiu com outras peças copiadas de revistas. Adquiria a matéria-prima a um armazém de Faro, que, por sua vez, era adquirido em grande parte à Espanha e a Marrocos. Havia uma "linha de produção" em que eram recrutadas artesãs locais para produzirem as tranças (com o esparto pisado), a empreita (com o esparto cru) e afins, nas suas próprias casas, que, por sua vez, eram entregues a Aldegundes Gomes que as cosia com fio de guita dando-lhes forma. O esparto era comprado já demolhado e batido, o que o tornava mais maleável. Nas palavras da especialista: "Trabalhar o esparto é uma arte e dedicamos amor aquilo que estamos fazendo." As peças, umas decorativas e outras utilitárias, desde tapetes, galinhas, burros, cabeças de burro a alcofas, eram vendidas para armazéns de Loulé e houve alturas em que as encomendas eram superiores à capacidade de produção. Esta artesã afirma que este trabalho era sobretudo feminino. A mesma assume que não irá deixar descendência nesta técnica: o esparto é muito "trabalhoso" e não dá rendimento. Também as vicissitudes económicas e a escassez em matéria-prima são uma condicionante para o seu futuro. Segundo Aldegundes Gomes, o comércio chinês invadiu o mercado com peças mais baratas e de pouca qualidade, aniquilando a produção local. É com pena que vê esta arte "esmorecer". 
 
Nota:
 
1. Texto da autoria de Sónia Silva e Helga Serôdio publicado na revista Raízes n.º 4 que pode ler na integra aqui

A arte de bem falar algarvio

05.05.20, Lígia Laginha


Bom dia caros visitantes do Marafações de uma Louletana!

Hoje trago-vos mais umas quantas "algarviadas".


Divirtam-se!


Algarviada: Atucho

Sinónimo: Multidão



Algarviada: Baraço

Sinónimo: Corda



Algarviada: Tem avonde

Sinónimo: Chega



Algarviada: Fole

Sinónimo: Acordeão



Algarviada: Estrasanda

Sinónimo: Cheira muito mal



Nota: 

1. A marafada louletana volta a lembrar que estas e outras algarviadas podem ser encontradas na obra com o mesmo nome, em dois volumes, de António Vieira Nunes. 

A mercearia do Sr. Bate-Pezinho

04.05.20, Lígia Laginha


Percorrendo as ruas de Loulé, reencontramo-nos com os lugares que habitam a nossa memória... a rua cuja calçada calcorreamos tantas vezes a caminho da escola. A fachada que outrora imponente, agora ameaça a ruína, ou mesmo aqueles aromas... o da padaria, com o seu pão à espera do primeiro freguês, ou mesmo aquela mercearia antiga, com as suas originais estantes e balcão de madeira de onde ainda sentimos saudosamente aquele misto de aromas do café de borra, do sabonete, do detergente para a roupa... aquele aroma indecifrável que evoca as coisas boas que, de forma discreta, nos acompanharam e que já quase não sentimos. 
Essa nostalgia é alimentada quando percorremos a Rua José Fernandes Guerreiro, e encontramos junto ao Mercado, a Casa Portuguesa. A sua montra diz-nos que existe desde 1908 - ainda no tempo dos reis. Lá dentro dá-se o reencontro com o passado... ei-las, as latas de conserva embrulhadas em papel, o bacalhau descansando na bancada, a pasta Couto, o sabão Clarim... e o tal balcão em madeira. 
Atrás do balcão espera-nos o merceeiro Manuel António Guerreiro com uma história para contar. Começa por nos dizer que herdou o nome do seu avô, fundador do negócio e cujo retrato, pendurado na parede, observa o vaivém do seu estabelecimento. Conta-nos que até à localização atual, a mercearia conheceu três locais: iniciou o ofício no sítio do Vale Telheiro, junto à pedreira, em 1908. Após dois anos, já na República instalou-se no início da Avenida José da Costa Mealha, zona de terreiro e hortas, quando ainda não se vislumbrava que aí pudesse, alguns anos depois, nascer uma portentosa avenida. Dois ou três anos corridos e muda-se novamente: durante 52 anos aviara a clientela no local onde hoje se encontra a Linadel. 




Inicialmente não foi fácil, recorda o seu pai Francisco Miguel Guerreiro, com os seus 89 anos. A implantação do mercado municipal não atraiu logo a clientela para aquela nova zona comercial, o que levou a que algumas portas tivessem que fechar. O povo estava acostumado a aviar-se mais abaixo, entre o Largo Bernardo Lopes e o Largo Chafariz. Valeu-lhe a lenta mudança dos hábitos. Aí cresceram os filhos do fundador, conhecido por Bate-pezinho - alcunha herdada do seu pai, exímio animador de bailaricos que acompanhava os acordes da música com o bater do pé. Já na maioridade, e seguindo o ofício do seu pai, os irmãos assumem o negócio em sociedade. Em 1965, estes mudam o estabelecimento para o número 18 da Rua José Fernandes Guerreiro, local onde ainda hoje se encontra. Volvidos 15 anos, já em 1980, a sociedade de irmãos é desfeita, assumindo Francisco Miguel Guerreiro a gerência do negócio. Os três filhos já crescidos, ocupam os tempos livres da escola ajudando o pai. Casa de boa clientela, toda a mão-de-obra é bastante bem-vinda. Os fregueses vinham do campo e da vila para se aviarem do que precisavam: a ração para o gado, a farinha para o pão, o toucinho do porco caseiro que jazia na salgadeira, o vinho a pressão, o álcool desnaturado para os candeeiros a petróleo, a ervilha e a ervilhaca, o sabão e também os produtos de higiene e beleza - tudo se vendia a peso e a litro na mercearia do Sr. Bate-pezinho. Era tudo a granel! 
Entre os momentos de alguma prosperidade, viveram-se outros, que custam recordar. O tempo do racionamento da II Grande Guerra foi um deles. Francisco Miguel Guerreiro conta-nos que "As pessoas tinham as senhas para poderem comprar só aquelas quantidades. Para cada família cabiam 100 gramas de açúcar... foi um momento muito complicado para a mercearia, com lucros baixos, a trabalhar com o meio tostão. Muito trabalho e pouca quantidade: ganhava-se muito pouco". A seguir ao 25 de Abril também foi um período conturbado - foi a crise do bacalhau que coincidiu com a época de natal. Francisco conta-nos que eram poucos os estabelecimentos que vendiam bacalhau em Loulé. Sendo a sua mercearia muito procurada para esse bem, só podiam vender um bacalhau por cliente. "Havia filas de quarenta pessoas lá fora. Entravam dez pessoas de cada vez e fechava-se a porta. Depois de aviadas, saiam pela porta de trás". Apesar das dificuldades, nunca correu o risco de fechar as portas. Vendia-se sempre... não existindo ainda os frigoríficos, até o sal que os peixeiros do mercado utilizavam na salga do peixe saía da sua mercearia - "Comprávamos aos camiões de sal, era coisa que não podia acabar". Nem a viragem dos tempos e o brotar das grandes superfícies intimidaram esta família de merceeiros. No entanto, o avançar da idade de Francisco fê-lo pensar em abandonar o negócio. O filho Manuel Antonio Guerreiro viu nesta crise uma oportunidade: forçado ao desemprego, decidiu, há cinco anos, abraçar o negócio da família. Era necessário manter o antigo freguês, mas também cativar uma nova clientela: com alguma carolice soube aproveitar se do espírito revivalista em voga, reinventar-se e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao conceito de antiga mercearia. Mudou o nome do estabelecimento: a mercearia do Sr. Bate pezinho é agora a Casa Portuguesa, onde o atendimento é personalizado, à boa moda antiga. A venda a granel de alguns bens, os produtos da região, assim como os tais artigos nacionais de marca intemporal são a sua imagem de marca e é o que leva os saudosistas a visitarem a sua loja, assim como o turista, que procura Loulé pela sua tradicionalidade - é tratamento cinco estrelas! Diz-nos com certo orgulho e um brilhozinho nos olhos: "Faço o meu trabalho e acho que é assim que deve ser - as pessoas gostam do conceito e voltam. Cerca de 90% dos nossos artigos não se encontram nos grandes supermercados. O comércio tradicional trabalha assim, há um conhecimento enraizado ao serviço do freguês". 
A Casa Portuguesa continuará a ser para os louletanos o seu espaço de memória, intemporalmente conhecida como a mercearia do Sr. Bate-pezinho... com o tal aroma e aquelas coisas boas. 

Nota:

1. Texto da autoria de Helga Serôdio publicado na Revista Raízes n.º 4 que podem ler na integra aqui

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