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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

"O meu 25 de Abril de 74" por Luís Guerreiro

25.04.18, Lígia Laginha


Nesse dia acordei como habitualmente às sete da manhã. Levantei-me, comi qualquer coisa, peguei nos livros e esperei pelo Adelino Calado, que na sua motorizada me daria boleia até à ponte da Tôr, distante cerca de 5Km da minha casa, onde quase todos os dias íamos apanhar a camioneta para Loulé a fim de chegarmos a horas à primeira aula que começava, salvo o erro, pelas 9h10. Havia uma paragem mais perto, o pontão da Arrancada, que fazia parte da carreira Barranco do Velho-Loulé, só que passava mais tarde e, portanto, não se ajustava ao nosso horário. Eu tinha treze anos e andava no primeiro ano do ensino secundário, no “Colégio da D. Arlinda” que nessa altura se intitulava Liceu Nacional de Faro-Secção de Loulé, havendo necessidade, para efeito de matrícula, de nos deslocarmos a Faro, o que para mim constituía sempre motivo de grande satisfação e agrado, uma vez que quase sempre tínhamos que passar o dia todo em Faro e a cidade capital do Distrito oferecia-me um certo fascínio e atrativos que a Vila de Loulé não possuía. Nessa manhã de Abril, até entrar para a camioneta, o dia afigurava-se-me semelhante aos anteriores, porém no seu interior havia qualquer coisa que me pareceu estranho. As pessoas falavam muito de acontecimentos ocorridos em Lisboa, pouco percetíveis ao entendimento imediato, o que me levou a pensar que ninguém sabia ao certo o que se estava a passar. Comentava-se que teria havido um golpe de Estado, que a tropa é que estava por detrás disto tudo e falava-se mesmo, recordo perfeitamente, de alguém ter dito que o General Spínola, aquele que tinha sido o Governador da Guiné, é que era o responsável. Nesse dia tive poucas aulas e lembro -me que à parte pequenos grupos de pessoas, na Tabacaria Lamy, nos cafés e num ou outro sítio, falavam dos acontecimentos, tudo o resto se assemelhava à rotina diária da vida local. Só quando cheguei a casa, à tarde, é que pude através do rádio ouvir pela primeira vez um comunicado do Movimento das Forças Armadas onde se explicava o que se estava a passar e se apelava à calma e à prudência da população de Lisboa, para evitar acidentes pessoais resultantes de eventuais confrontos. Depois ouvi a Grândola Vila Morena do Zeca Afonso e alguma música e canções que, soube depois, estavam proibidas, de artistas bastante representativos do processo que se seguiu e que destaco Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais, entre outros. Nesta altura Querença, a minha aldeia natal não tinha luz elétrica, estrada alcatroada, nem os mais elementares benefícios da vida moderna. Pouca gente lia jornais, eu diria que com regularidade ninguém, e televisão haveria, numa área de 10km2 em redor da minha casa, 3 televisões, uma a bateria e duas a gerador, que apenas eram ligadas durante o Festival da Eurovisão, Festividades da Cova da Iria e num ou noutro acontecimento considerado mais importante. Eu tinha sorte porque a uns 800m da minha casa na venda do Ti Matias existia um desses raros aparelhos e o dono furava frequentemente as estatísticas, isto é, acendia a televisão mais vezes do que os outros.
Uma imagem que retenho é a das tradicionais mensagens de Natal e Páscoa dos militares que se encontravam a combater nas “ nossas províncias ultramarinas”.
Devo confessar que embora não tivesse convicções de natureza política firmes, porque no meu meio familiar as preocupações eram outras, e na aldeia os assuntos dominantes eram os relacionados com o quotidiano, eu pensava muitas vezes na guerra colonial, na sua razão de ser, nas suas vítimas inocentes, nos argumentos que nos impingiam para a sua justificação e pensava, digo com toda a sinceridade, apesar da idade que tinha, na maneira de me safar da mesma. Quando se deu o 25 de Abril eu já tinha esse tipo de reflexões, talvez um pouco ingénuas, é certo, porque o meu mundo de informações era muito limitado, faltavam-me muitos dados e o meu universo de vida era restrito. Mas tinha um fator que me era favorável, desde muito novo ia passar alguns dias a Lisboa, porque a minha irmã e os meus primos encontravam-se lá a estudar e em casa deles lia-se o República, a Vida Mundial e outras revistas que hoje tenho dificuldade em recordar e o grupo de amigos eram na generalidade estudantes universitários com conversas, na altura, contestatárias ao regime, até porque nestes anos a Universidade e o sistema interno atravessavam uma das maiores crises de sempre, o que me despertou uma certa consciência e modo de ver as coisas de outra forma.


Por isso quando se deu o 25 de Abril não tive dificuldades de adaptação, participei ativamente e de livre vontade no processo que se seguiu, principalmente a nível local, e mesmo depois de ter saído de Querença em 1978 nunca deixei de ter intervenção cívica e participado em muitas iniciativas, sobretudo no campo cultural.

(Artigo inicialmente publicado no Jornal Carteia, suplemento “25 de Abril” de 22 de abril de 1993).

Nota: Texto da autoria do saudoso Eng.º Luís Guerreiro publicado na revista Raízes n.º 2 que pode ler na integra aqui.

A Festa Espiga

19.04.18, Lígia Laginha
Chegando a Maio, é altura de comemorar a Festa da Espiga. Contados quarenta dias após a Páscoa, na quinta-feira da Espiga celebra-se a Ascensão de Cristo, uma das festividades mais importantes do calendário cristão.
Por esta altura, manda a tradição que se vá para os campos apanhar a espiga. Este ritual, de cariz pagão, inicia a época das colheitas e assinala o período fértil da primavera, estando associado às festas agrárias. As suas origens remontam às civilizações clássicas greco-romanas, onde nas Festas Demétrias se evocava a proteção da deusa Deméter, deusa da agricultura e das searas e da sua filha Perséfone, deusa do trigo, da germinação, dos rebentos e das folhas.




O raminho, com virtudes de protecção e esconjuro, obedece a um preceito: deverá ser colhido pelo meio-dia, acompanhado de ave-marias e pais-nossos e compõe-se – sempre em conjuntos de número impar – de espigas de trigo, para a abundância de pão; raminhos de oliveira, para não faltar o azeite e a paz no lar; papoilas, para dar alegria; raminhos de romãzeira, para a abundância e fertilidade; o alecrim para que não falte a saúde e a força para trabalhar e malmequeres amarelos e brancos para o ouro e prata. O amuleto é pendurado atrás da porta da cozinha ou da sala e aí permanecerá por um ano até que seja substituído.

Contam as gerações mais antigas que nesse dia as populações iam para os campos exorcizar o inverno e receber a primavera em tom de festa e romaria. Com as vicissitudes dos tempos, esse ritual foi-se esvanecendo e este dia passou a ser considerado um dia normal de trabalho e até a Igreja o dispensou, transferindo as cerimónias litúrgicas para o domingo seguinte.

Recordava José Viegas Gregório:

“Antigamente nesta freguesia festejava-se a quinta-feira da Ascensão como dia santificado onde grande parte da população assistia à missa da Igreja Matriz celebrada com uma solenidade muito especial durante a qual o celebrante espalhava flores sobre a assistência como sinal da ascensão de Cristo ao céu.
Na parte da tarde as classes mais jovens (…) dirigiam-se ao planalto da Rocha da Pena onde passavam o resto do dia em animado convívio de comes e bebes. Outros ocupavam-se em apanhar flores e plantas medicinais para cura das doenças que durante o ano pudessem vir a ter.” (in Agenda Cultural, Câmara Municipal de Loulé, Maio de 1993)

Corria o ano de 1968, quando José Viegas Gregório, então Presidente da Junta de Freguesia de Salir, resolveu devolver ao Dia da Espiga a dinâmica entretanto perdida. As celebrações populares espontâneas deram lugar a festejos organizados pela Junta de Freguesia com a pronta e entusiástica adesão dos habitantes de Salir, inaugurando-se a Festa da Espiga neste novo formato, em 23 de Maio de 1968.



A festa adquire um cariz etnográfico – os visitantes assistem ao desfile de viaturas particulares, profusamente decoradas com palmas e vegetação diversa. A tripulação, aprumadamente trajada à moda antiga dá alma à festa: ao som do acordeão e cantares tradicionais, recriam as diversas actividades agrícolas e artesanais da freguesia, contando-se entre elas: o trabalhar a terra, as colheitas, o fazer do pão, a destilação, a apicultura, a cortiça, os trabalhos de linho, palma, esparto, cestaria de verga, a matança do porco, os jogos tradicionais, entre outras mais. 
A declamação de poesia de improviso à tribuna é o ponto alto do cortejo – os carros alegórico, um por um, vão parando junto ao palanque que escuta animadamente as suas declamações ao sabor do melhor das produções de cada povoado: provam-se os tintos e os medronhos, a linguiça e o queijo… 

A Festa da Espiga de Salir tem, ao longo dos anos, atraído um cada vez maior número visitantes, sendo já cartaz turístico da freguesia e do concelho. Pelo papel representativo da nossa cultura e das nossas raízes, o feriado municipal é, desde 1985, comemorado no Dia da Espiga.


Quem foi José Viegas Gregório?

José Viegas Gregório nasceu em Salir no ano de 1915. 
Após anos dedicado ao comércio e à agricultura, iniciou, em 1952, a sua actividade pública, assumindo o cargo de Secretário da Junta de Freguesia de Salir. Seis anos depois foi eleito presidente da mesma Junta, funções que exerceu até Setembro de 1974. Regressaria à presidência da Junta de Freguesia nas eleições de 1982, mandato que cumpriu até 1985.
Uma das suas grandes paixões era o coleccionismo de tudo quando pudesse de alguma forma estar ligado a Salir. Do vasto acervo que deixou ao Museu Municipal contam-se objectos etnográficos, jornais, documentação, cartazes, programas de festividades realizadas em Salir e um vasto espólio fotográfico. 
Durante 43 anos foi correspondente do jornal “O Século” e colaborou em diversos jornais locais e regionais.
Contudo, José Viegas Gregório será sempre lembrado sobretudo pela criação da Festa da Espiga, realizada em Salir, por sua iniciativa, desde 1968. 
Em 1991 foi alvo de uma homenagem pública promovida pela Junta de Freguesia de Salir tendo sido atribuído na altura o seu nome a uma das principais artérias da referida Freguesia.
Pelo seu legado em prol da cultura local, José Viegas Gregório foi agraciado pelo Município de Loulé com a medalha municipal de mérito grau bronze, em 1993.
Faleceu a 13 de Outubro de 2007.

Nota: Texto da autoria de Helga Serôdio publicado na Revista Raízes n.º2, datada de 2014. Aceda à revista na integra aqui.