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Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

Marafações de uma Louletana

Um espaço dedicado a Loulé e às suas gentes!

Loulé por Charles Bonnet

31.10.17, Lígia Laginha
Residência de Charles Bonnet em Loulé

Charles Bonnet, engenheiro francês, foi o que se pode chamar um pioneiro na investigação geológica do Algarve e do Alentejo. Decidi escrever sobre Bonnet e sobre a obra que nos legou dada a ligação do mesmo às terras louletanas. Mas comecemos pelo início: quem foi Charles Bonnet?

Charles Jean Baptiste Bonnet nasceu em 1816 na localidade de Vesoul, Haut- Saône, França. Estudou no país natal, concluindo a formatura em Engenharia Civil na especialidade de Geologia e mineralogia. Desconhece-se a data que emigrou para Portugal, mas José Carlos Vilhena Mesquita considera que terá sido entre 1844 e 1846, sendo que neste último ano se encontrava no Algarve a estudar a composição geomorfológica de uma mina de cobre. Radicou-se em Lisboa e posteriormente em Loulé. Em 1847, fez a sua segunda viagem ao Algarve, desta feita para percorrer toda a região, desenvolvendo diversas observações de carácter topográfico, geográfico e geológico. Desta estadia resultou a obra Memória sobre o Reino do Algarve: Descrição Geográfica e Geológica que lhe valeu a eleição para sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, para presidente da Comissão Geológica de Portugal e para a comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Em 1849 o governo chefiado pelo Duque de Saldanha aprovou a concessão de um subsídio de 4 contos de réis, sendo 3 destinados à exploração geológica e mineralógica do Reino e 1 para a constituição dum herbário da flora portuguesa. Apaixonado pelo Algarve e no cumprimento destas missões que lhe foram confiadas em 1849, Charles Bonnet escolheu a vila de Loulé para nela fixar residência e iniciar os seus trabalhos de aclimatização botânica. Permaneceu na vila de Loulé até altura da sua morte em 1867.

A obra de Bonnet divide-se em duas partes distintas: a primeira trata exclusivamente da geografia física e topográfica e compõem-se de sete capítulos; a segunda parte é inteiramente dedicada ao estudo geológico e mineralógico da província. Contudo, longe de se tratar de uma obra maçuda e exaustiva, é antes de mais um “tratado” que nos permite, além dos aspectos geológicos e geográficos, conhecer os usos e costumes do povo algarvio. 
Mas como eu escrevi anteriormente, de entre todo o Algarve que percorreu, Bonnet escolheu Loulé para viver e aí criar um herbário da flora portuguesa, a que muitos louletanos chamaram durante anos “Jardim do Boné”. Na sua obra Bonnet descreve Loulé como sendo “a vila do Algarve mais agradável e onde melhor se pode residir. […] A vegetação é ali extremamente bela, com frutos de toda a espécie, deliciosos e abundantes. O clima é temperado, a água é muito boa e em quantidade, sendo o comércio desta pequena vila bastante considerável.”. Assim sendo, Bonnet, ao contrário de outros estrangeiros que por cá passaram no século XIX, tece rasgados elogios às terras louletanas, sendo que seguidamente inuméra também as qualidades de outras localidades pertencentes ao Concelho como Alte, Ameixial, Salir e Querença.
Interessantes são também as observações de carácter etnográfico. Referindo-se à indústria, comércio, usos e costumes, Bonnet escreve “Em Loulé, Lagoa e Moncarapacho, fabrica-se com argilas ordinárias umas louças grosseiras, principalmente vasilhas a que dão o nome de Cântaro, que utilizam para conservar a água. […] Nas montanhas calcárias vimos muitos fornos de cal, principalmente nas cercanias de Budens, Barão de S. Miguel, Bensafrim, Odiáxere, Alte, Tavira e S. Estêvão. A maior indústria do Algarve consiste na fabricação de obras feitas com palmeira anã e o esparto. Os diferentes objectos são fabricados pelas mulheres, que fazem ainda pequenas obras com a piteira, e se ocupam igualmente na fabricação de rendas muito bonitas, mas geralmente de algodão, que servem para uso doméstico.”

Depois da morte de Charles Bonnet e com o passar dos anos, o “Jardim Bonnet” foi se degradando até à sua extinção. 

Hoje em dia o nome de Charles Bonnet faz parte da toponímia de Loulé dando nome a uma travessa construída na década de quarenta do século XX, na sequência da edificação da cadeia da comarca. O nome de Charles Bonnet foi atribuído a esta travessa dada a sua proximidade com a antiga residência do mesmo, nomeadamente na antiga Rua Nova de Quarteira, actual Rua Gil Vicente. 

Nota: A informação aqui apresentada baseia-se no estudo introdutório de José Carlos Vilhena Mesquita sobre a obra de Charles Bonnet; na obra Memória sobre o Reino do Algarve: Descrição geográfica e Geológica do próprio Bonnet e na obra Dicionário toponímico: cidade de Loulé de Jorge Filipe Maria da Palma.

A moura do pente de ouro

31.10.17, Lígia Laginha



O Algarve é rico em lendas e tradições que remetem para o passado em que a região foi ocupada pelos árabes. Assim, muitas vezes, o nosso imaginário tem como elementos chave as mouras encantadas e os seus encantamentos. Uma dessas lenda é A moura do pente de ouro:

“Não muito distante da povoação (Salir), há um sitio chamado a Fonte de Ouro, antigamente cognominado a Fonte do Mouro, onde, segundo a tradição de muitos séculos, existem encantadas duas irmãs, duas mouras, que têm aparecido a diversas pessoas. 
Há muitos anos passava casualmente por este sítio um mancebo, viu sentada a pentear-se com um pente de ouro uma formosa mulher. O rapaz quedou-se pasmado para o pente e para a mulher.
- O que queres? Perguntou-lhe a mulher.
- Nunca vi pente tão bonito e tão rico, respondeu o mancebo.
- Dou-te riquezas de muito mais valor se me prestares um pequeno serviço.
- Que serviço?
- Eu e a minha irmã estamos aqui encantadas. Se nos desencantares, dou-te dinheiro para comprares muitos pentes.
- O que devo fazer?
- Amanhã, antes do sol nado, vem aqui e encontrarás dois touros bonitos e belos. Junge-os ao arado e tira um rego da igreja de Salir até aos Palmeiros: um rego sem curvas, o mais direito que possas. Deves, porém ter consideração que não te distraias com o que encontrares no caminho, ainda que a chapa do arado levante peças em ouro. Se te distraíres não ganhas o que te prometi e redobras o nosso encantamento.
Prometeu o rapaz cumprir à risca a condição proposta.
No dia seguinte, antes de nascer o sol, voltou o mancebo ao sítio, e encontrou dois belos touros. Jungiu-os ao arado que ali encontrou e tomou o caminho de Salir, começando à porta do templo, que era então a capela do castelo. Tirou o rego, seguindo a direcção dos Palmeiros, com os olhos fixos na canga para não se distrair. A cem metros dos Palmeiros encalhou a chapa do arado em uma pedra, que rebentou ao impulso dos touros, saltando para o ar uma grande porção de dobrões de ouro. Esquecido da promessa ou convencido daquele anexim mais vale um pássaro na mão do que dois voando, o rapaz largou a rabiça do arado e foi encher o bolso de dobrões. Quando voltou para o arado não o encontrou, nem os bois; apalpou os bolsos e os dobrões tinham desaparecido!
Não podia ser maior o castigo!”

Nota: Esta lenda foi retirada da obra As Mouras Encantadas de Ataíde Oliveira.

O nosso património - As Bicas Velhas de Loulé

30.10.17, Lígia Laginha
 
 
Loulé, como qualquer outra urbe algarvia que se preze, possui ainda uma fonte secular, fonte esta designada de "Bicas Velhas".
No livro Quadros de Loulé Antigo do louletano Pedro de Freitas pode ler-se: "As quatro bicas datam de 1837, e foram feitas do material do primitivo sino do relógio, que servira na torre da Matriz e ainda fora colocado na torre das muralhas, que, por estar arruinado, foi fundido neste ano. Estas bicas eram alimentadas por um potente filão de água. Raramente secavam na maior força do calor, e além de alimentarem numerosa gente com o precioso líquido, abasteciam o tanque das lavadeiras, que existia ao fundo, e mais o grande chafariz onde os animais bebiam."
Na parte superior da fachada passa muitas vezes despercebida uma pedra bem mais antiga, com a representação de uma mulher alada de pernas abertas… Foi retirada do convento da Graça.
Na actualidade, as Bicas Velhas continuam a jorrar e muitos ainda bebem da sua água, como de resto ontem, ao por lá passar, constatei.
 
A marafada louletana apela para que numa das próximas vezes que visitem Loulé não se esqueçam de ir espreitar esta beleza patrimonial que muitas vezes passa quase incógnita perante a grandeza do património que a rodeia.
 

D. Sanita, a ajuntadeira do arco

30.10.17, Lígia Laginha
 
 
Na Rua dos Almadas, que outrora se designava Rua do Arco do Chafariz, encontramos um pequeno espaço típico e familiar onde D. Maria Encarnação do Nascimento, conhecida por D. Sanita, trabalha como ajuntadeira.
Mal saiu da escola foi logo aprender o ofício, porque a dureza da vida e as circunstâncias dos tempos assim o exigiam. Mas D. Sanita confessa-nos, com a sua simpatia irradiante: “O meu sonho era ir para a uma creche tratar de crianças, mas a vida não era fácil e eu precisava de ganhar, os tempos eram muito pobres”. Hoje, reformada, com uma modesta pensão, continua agarrada à arte de coser e ajuntar, soltando um desabafo: “Hei-de morrer a trabalhar!”.
Nascida e criada em Loulé, mais precisamente na Rua do Poço (freguesia de S. Clemente), trabalhou em lojas desde menina e moça, mas há mais de trinta anos que está instalada neste “cantinho”, próximo da Rua das Lojas, onde alia ao trabalho o gosto pelo convívio, pois muitas clientes habituais param na porta nº 10, não apenas para encomendarem algum serviço, mas também para dois simpáticos dedos de conversa.
 
 
Continuando a conversa, D. Sanita lá nos vai dizendo que D. Albertina foi uma das primeiras pessoas que lhe ensinou a profissão, tinha muita paciência para ensinar, e que também trabalhou com o senhor António (o sapateiro da Matriz entrevistado para o 1º número da Raízes) numa loja, durante dezoito anos. “Éramos quatro mulheres a trabalhar”, adianta-nos. Tudo gente boa, trabalhadora, sempre pronta a ajudar…
Antigamente havia muitos sapateiros e lojas tradicionais e as pessoas deslocavam-se à “vila” para fazer compras e arranjar calçado ou peças de vestuário. Ainda hoje tem algumas clientes fixas que lhe pedem para fazer bainhas ou colocar fechos, fazer uns pequenos arranjos. Há roupa com um significado especial, com um valor sentimental e afectivo para quem a possui. Calçado já não arranja, apenas vestuário, pois a máquina que ali está parada não funciona por falta de uma peça.
Sobre Loulé e os louletanos considera que os tempos mudaram hábitos e costumes e que antigamente talvez existissem mais laços de afectividade. “Era outra época. As pessoas ajudavam-se mais, eram mais amigas umas das outras”.
É um prazer conversar com D. Sanita, pela sua afabilidade, pela sua doçura, ela que é uma figura muito querida e estimada na cidade. E aquele espaço tão aconchegado, que chama a atenção de qualquer visitante que ali passa, é um espaço onde o afecto e o gosto pelo ofício se misturam com uma visível devoção a Nossa Senhora da Piedade, a Mãe Soberana, padroeira dos louletanos, patenteada nas diversas imagens que decoram as paredes da sua simpática “oficina” e que sobressaem entre as máquinas, as tesouras, as linhas e outros utensílios e peças que também têm a sua história. 
Na Rua dos Almadas a vida tem um ar tradicional…
 
 
Nota: Artigo da autoria do saudoso amigo e colega Luís Monteiro Pereira publicado na Revista Raízes n.º 2. Ler a revista na integra online aqui
 
 

O nosso Património - O Mercado Municipal de Loulé

28.10.17, Lígia Laginha


Apelidado pelos louletanos de "praça", o Mercado Municipal de Loulé é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade.  
 
Eis aqui um pouco sobre a sua história: 

O Mercado Municipal de Loulé foi inaugurado no dia 27 de junho de 1908, altura em que a Câmara Municipal era presidida por José da Costa Mealha. O edifício foi construído segundo projeto do Arquiteto Alfredo Costa Campos, de Lisboa, embora o mesmo projeto tenha conhecido algumas alterações desde o documento inicial de 1903  que por sua vez já tinha por base um outro projeto de 1898, cujo autor se desconhece.

A ideia de construir um mercado para o peixe, frutas e hortaliças era já antiga e consensual, no entanto, a sua localização e o número de mercados a construir não reunia o consenso dos louletanos. A rivalidade era sentida sobretudo entre a Freguesia de São Sebastião e a Freguesia de São Clemente.
Segundo os jornais da época existiam diversas propostas quanto à localização do Mercado.
Em 1891, a Câmara Municipal encomendou ao Construtor de Obras Públicas de Faro um projeto para o mercado de venda de peixe. Esse mercado seria construído junto ao Largo de Chafariz (atual Largo D. Afonso III)  e consistia numa planta retangular com 33 metros de comprimento e 19,5 metros de largura, tinha 60 bancas com um metro quadrado cada e nove compartimentos para arrecadações.
Este projeto não foi concretizado mas reflete a preocupação da Câmara relativamente à venda do peixe por ser a mesma que arrancava mais críticas aos louletanos.
Após uma longa discussão, a Câmara decide então, em finais do século XIX, construir o Mercado ao lado do edifício dos Paços do Concelho e iniciam-se então as expropriações e respetivas demolições no início do século XX.
Em termos arquitetónicos, o mercado adotou o estilo revivalista de inspiração árabe com quatro pavilhões e quatro portões de acesso.
Porém, a Câmara não tinha grande disponibilidade financeira naquele momento e a verba disponível era insuficiente para a execução da totalidade do projeto. Nesse sentido, foi pedido ao arquiteto que fizesse algumas alterações no projeto, as quais foram apresentadas em 1905 e que visavam basicamente a ala sul do Mercado, nomeadamente retirando dois torreões e algumas lojas para além de todos os azulejos do revestimento. As obras foram adjudicadas em 22/06/1905 a José Francisco dos Santos que as concluiria em 1908.
A partir deste momento e ao longo da sua existência o Mercado de Loulé tem sofrido diversas obras de melhoria, ampliação e remodelação.
Em 1933 o técnico de Arquitetura João Baptista Mendes, autor dos projetos do Cine-Teatro Louletano e do Salão Nobre dos Paços do Concelho, fez um projeto de ampliação do Mercado, contudo as grandes obras de ampliação só foram feitas no princípio dos anos 80, e, mais recentemente, a partir de 2004. Esta última ação de remodelação do Mercado implicou a construção dos dois torreões que constavam no projeto de 1905, a reabilitação integral das fachadas, a reforma das estruturas metálicas existentes, a substituição da estrutura em betão armado da ala sul por estrutura metálica e todo um conjunto de melhorias nas zonas de venda ao nível das condições de funcionamento e das redes técnicas do mercado. Após estas obras, o Mercado de Loulé reabriu a 1 de Fevereiro de 2007, para as mesmas funções para que fora concebido no início, mas mais moderno, com melhores condições de higiene e segurança e visando cada vez mais atrair o turismo para aquele que é um dos ex-libris da cidade de Loulé.



Notas: 


1. Modo de funcionamento:  Segunda-feira a Sábado: 6h30m – 15h00. Encerrado ao Domingo e em alguns feriados;


2. Morada: Praça da República, 8100-270 Loulé;
 
3. Informação maioritariamente retirada da obra Mercados públicos - Motores de desenvolvimento local: o Mercado Municipal de Loulé 1908 - 2008 de Patrícia Santos Batista. 
 
 

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